Negotiauctions: estratégias de negociação

Um dos aspectos nos quais a faculdade de Administração que cursei não preparava especificamente seus alunos foi o das técnicas de negociação: como se preparar, montar suas ofertas, os planos, estudar os concorrentes e garantir que vai sair da mesa com a solução mais vantajosa.

Habilidade inata para alguns, técnica desenvolvida na prática para outros, e estudo científico para muitos – e este terceiro caso é o do autor do livro Negotiauctions que, pela sua especialidade, tem a rara condição de ocupar cadeiras de docente tanto na Harvard Business School quanto na Harvard Law School.

A expressão negotiauctions parece estranha porque é formada pela junção dos nomes de duas das 3 formas pelas quais se pode conduzir um processo de transferência de valores entre 2 partes: as negociações (negotiations) e os leilões (auctions). A terceira forma é a compra a um preço previamente anunciado, como fazemos todos os dias no supermercado e na padaria.

Com base nas definições dos processos envolvidos (negociações têm pressão entre participantes de lados opostos da mesa, leilões têm pressão entre participantes de um mesmo lado da mesa, e negotiauctions têm ambos), o autor apresenta as vantagens e aplicações de cada um dos modelos, tanto para compradores quanto para vendedores.

Aprender com exemplos reais é bom, e no livro há alguns exemplos bem cotidianos, como o da compra de uma casa de praia (o comprador levou a corretora a operar, na prática, um leilão), a compra de um carro pelo próprio autor do livro (ele tentou levar as concessionárias a uma situação de leilão, mas acabou tirando vantagem de uma negociação com apenas uma delas), e até a negociação com crianças sobre o número de rodadas adicionais de uma partida que elas poderão jogar antes de ter de ir jantar.

Mas não se engane: o livro Negotiauctions é bastante técnico (ainda que com linguagem acessível e boa didática), e boa parte dos exemplos são do mercado financeiro, licitações e de negociações entre grandes empresas e instituições financeiras: direitos sobre seriados de TV, aquisições de empresas, etc.

Um pouquinho de conceitos

Boa parte do conteúdo do livro se apoia em 3 conceitos-chave sobre os quais você precisa saber a sua própria posição antes de chegar na mesa de negociação. Se você souber a posição dos demais negociadores a respeito deles, terá uma vantagem extraordinária a seu favor – mas se não souber, ao menos deve se esforçar para estimar e simular.

São eles:

  • MAANA: “Melhor Alternativa à Negociação de um Acordo” – é o que o negociador fará se não fechar negócio com você. Ele vai comprar de um concorrente seu, vai deixar de vender a casa de praia, vai desenvolver seu próprio software?
    Na prática, além de você conhecer o seu próprio MAANA, é importante avaliar o dos demais participantes, afinal, o custo ou prejuízo causado pelas consequências do MAANA deles também podem fazer parte da sua estimativa de valor. Precursores da Administração, como Sun Tzu e Maquiavel, já alertavam para as consequências de deixar um oponente vigoroso sem alternativas…
     

  • Reserva de Valor: é o número a partir do qual você não aceitará mais continuar negociando, no estilo “não pago mais do R$ 300”, ou “não vendo por menos de R$ 1200”.
    Não é o mesmo que o “preço justo”, nem o que se espera pagar, mas sim o ponto de equilíbrio a partir do qual o MAANA se torna mais atrativo do que permanecer negociando.
     

  • ZOPA: “Zona de possível acordo”. É o conjunto de condições (geralmente podendo ser representado como um intervalo em um gráfico) nos quais a MAANA e a Reserva de Valor de cada um dos participantes permite chegar a um acordo.

A prática

A partir destes conceitos, o autor leva a um interessante passeio pelos mecanismos disponíveis e suas vantagens e armadilhas para compradores e vendedores.

Questões bem práticas são apresentadas e discutidas, tais como:

  • Vale a pena fazer uma oferta inicial, ou é melhor insistir para que a outra parte a faça? (considerando que quem faz a oferta inicial tem uma chance a mais de “ancorar” a percepção do outro sobre os limites da ZOPA…)
  • Como estimar uma boa proposta inicial ou primeira contraproposta, de modo a aumentar a chance de a negociação conduzir ao valor que realmente se deseja pagar?
  • Como sair das situação de “soma zero” ou “perde-ganha” (onde para um lado ganhar R$ 10, o outro precisa perder os mesmos R$ 10) e ir para um ganha-ganha: compromissos mútuos, ampliação do escopo, meios adicionais de pagamento ou reciprocidade, etc.
  • Leilões abertos ou com lances fechados? Em uma ou várias rodadas?
  • Movimentos de rearranjo (em que um ou mais participantes alteram as condições ambientais criando situações favoráveis para si)
  • Movimentos de encerramento (em que um participante oferece algo que leva quem está do outro do lado da mesa a fechar negócio imediatamente, sem consultar mais ofertas de outros concorrentes)

Como você pode ver, as questões enfrentadas por quem negocia a compra de uma empresa variam apenas em grau, e não em natureza, em relação às de quem negocia com o gerente do banco ou com o corretor de imóveis.

Gostei de ler o Negotiauctions, e recomendo.

Seguem os detalhes para que você o encontre mais facilmente na livraria, folheie e veja se serve para você: Negotiauctions. Autor: Guhan Subramanian. Editora: Campus. 220 páginas, publicado em 2010.

Ganhe seu exemplar!

O exemplar que li para produzir a resenha acima foi cedido pela editora, que reservou mais um para ser sorteado entre os leitores.

Para concorrer, basta incluir um comentário ao final deste post, até 27/12/2010 (segunda-feira), dizendo qual das “questões práticas” apresentadas acima é a que mais aparece como obstáculo nas suas negociações, e dando um exemplo de situação prática em que isso ocorreu (não é necessário dar detalhes como o nome dos demais negociadores ou empresas envolvidas).

O sorteio ocorrerá no dia 28/12, e o vencedor será anunciado aqui mesmo nos comentários desta notícia, bem como no Twitter @efetividadeblog, e terá até o dia 5 de janeiro para entrar em contato (as instruções estarão no anúncio do vencedor) dizendo o endereço postal no Brasil para o qual a editora deverá enviar o seu exemplar!

Atualização: E o vencedor do sorteio é o Romulo Pimentel, que tem até o dia 5 de janeiro para entrar em contato dizendo o endereço postal no Brasil para o qual a editora deverá enviar o seu exemplar!

, por Augusto Campos
Carreira, Comunicação
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56 Comentários até agora

  1. Rodrigo Zuchi comentou:

    em December 27 2010 @ 14:58

    POssuo maior dificuldade na hora de fazer uma contra proposta quando solicitada, que faça com que meu produto continue competitivo. Em situações assim procuro sempre me apoiar em outros fatores que agregam valor ao produto.

  2. Aramis Flores comentou:

    em December 27 2010 @ 19:13

    No meu ponto de vista uma das maiores dificuldades encontradas é chegar a uma negociação ganha-ganha. Normalmente as partes tem de ceder um pouco o que já passa uma sensação de “perda”. Ao comprar qualquer produto em uma loja ao conseguir um desconto as pessoas acreditam estarem ganhando mas muitas vezes em lojas do mesmo ramo o produto está a um valor bem abaixo do que ela pagou mesmo com o desconto, fica também a sensação de ter feito um mal negócio… entre outros exemplos.

  3. Vinícius Alves Hax comentou:

    em December 27 2010 @ 23:54

    Meu maior problema é saber quando continuar a negociação ou quando encerrar.

    Em uma reunião com possíveis clientes oferecemos um serviço, mas eles não estavam dispostos à investir. Decidi encerrar a negociação por ali, por pensar que não ia resultar em nada, mas depois que a reunião acabou fiquei com a dúvida: “Será que era para ter encerrado mesmo?”

  4. Alan comentou:

    em December 28 2010 @ 00:49

    Tenho dificuldades em estimar o valor de uma proposta inicial ou primeira contraproposta para projetos de software.

    Conheço bem as técnicas de estimativa de custos, mas tenho pouca prática na estimativa de preço, uma vez que há muitas variáveis envolvidas.

    Sempre sou perguntado pelos meus alunos sobre como colocar preço nos produtos que eles podem desenvolver, porém não participei de muitas negociações e não consigo explorar bem esta questão. Gostaria de melhorar esta parte de minhas aulas.

  5. Rodrigo Dutra comentou:

    em December 28 2010 @ 02:03

    A minha maior dificuldade reside em como estimar uma boa proposta inicial ou primeira contraproposta. Como negocio sempre honorários por prestação de serviços, a existência de muitas variáveis a serem consideradas dificultam apurar uma proposta ideal e que ao mesmo tempo me leve a perder o negócio.

  6. Osmar Eduardinho comentou:

    em December 28 2010 @ 11:12

    Achei legal, principalmente as questões sobre oferta inicial , como estimá-la e etc.Enfim precisamos colocar a bola no jogo para acontecer o gol, mas como não fazer gol contra ou tomar gols???
    E pena que o livro está em inglês, mas mesmo assim quero ganhá-lo!!! Feliz Ano Novo a Todos!

  7. Santiago Melo comentou:

    em December 28 2010 @ 12:20

    Tenho dificuldades quando aparece uma situação com movimentos de rearranjo. Tivemos algumas perdas recentemente, aqui aonde eu trabalho. Um caso prático é quando um prestador de serviços propõe um preço bem alto, depois ele oferece uma opção com custo fixo mais baixo, mas exige algumas regalias e percentual a mais por fora das transações.

  8. augusto comentou:

    em December 28 2010 @ 12:33

    E o vencedor do sorteio é o Romulo Pimentel, que tem até o dia 5 de janeiro para entrar em contato dizendo o endereço postal no Brasil para o qual a editora deverá enviar o seu exemplar!

Fique ligado!
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