Gestão do Conhecimento: o caso do míssil balístico dos EUA cuja “receita” se extraviou

Gestão do Conhecimento é um conjunto de disciplinas e práticas que buscam controlar, facilitar o acesso e manter o gerenciamento integrado das informações de uma organização, nos diversos meios em que elas possam se encontrar.


Lançamento de míssel Trident

Você acreditaria que os laboratórios que produzem armas nucleares dos EUA estão tendo dificuldade em dar manutenção para prolongar o tempo de uso de seus mísseis Trident projetados na década de 1980, porque ninguém lembra mais como produzir um de seus componentes? Este é o caso que acompanharemos hoje, e que também deve interessar especialmente oa pessoal de Gerenciamento de Projetos que estiver lendo!

Uma ds funções essenciais da Gestão de Conhecimento é mapear e tornar acessível a Memória Organizacional, permitindo usar em benefício da organização os ativos de conhecimento que frequentemente estão espalhados de forma desordenada em documentos, arquivos, discos, registros diversos e na memória das pessoas.

Se alguma iniciativa de Gestão de Conhecimento já foi experimentada na sua organização, você já deve ter ouvido os conceitos associados, e possivelmente conseguiu visualizar o quanto pode ser desafiador este papel. Mas na hora de pensar sobre os custos, às vezes o projeto acaba sendo abandonado. Na próxima vez, que tal adotar um caso real que mostra o risco a que se expõe quem não dá atenção à Gestão do Conhecimento?

Como os Estados Unidos esqueceram a receita de seus mísseis Trident?

Os Trident são mísseis nucleares balísticos lançados por submarinos, e sua versão corrente (tecnicamente, Trident II D5) entrou em serviço em 1990, com a intenção de permanecer na ativa até 2027.

Mas em 2002 os EUA anunciaram um projeto para prolongar até 2040 o tempo de serviço dos mísseis, substituindo os componentes necessários, em uma operação de baixo custo. Até aí tudo bem: se a tecnologia permite, o melhor é economizar mesmo.

Só que algo deu muito errado: na hora de produzir um misterioso material chamado Fogbank, cuja função é secreta (e especialistas acreditam estar ligado a uma espuma de isolamento entre estágios da bomba, com papel importante para desencadear a reação de fusão nuclear), ocorreu o que a Administração de Segurança Nuclear (NNSA) classificou como “perda do conhecimento” de como fabricar o Fogbank.


Submarino da classe Ohio, equipado com os Tridents

Só que trocar o Fogbank é necessário para atualizar as ogivas dos mísseis, mantendo sua precisão e segurança. E a conclusão do comitê governamental que vem investigando o caso, divulgada recentemente, deve fazer arrepiar os cabelos dos Gerentes de Projetos e dos profissionais da Gestão do Conhecimento na audiência. Cito a partir da cobertura na imprensa:

“A NNSA não gerenciou efetivamente um dos maiores riscos do programa – a manufatura de um material-chave conhecido como Fogbank – resultando em US$ 69 milhões de custos excedentes e um atraso de ao menos um ano, que apresentou significativos desafios logísticos à Marinha.”

Erros sérios na gestão do orçamento, do prazo e dos riscos, tudo em uma única frase, e por culpa de uma espuma cuja receita foi extraviada…

Mas uma única frase não é suficiente para detalhar, portanto vamos escrever um pouco mais:

  • Primeiro descobriram que seria necessário construir um novo laboratório para fazer o Fogbank, porque o antigo foi demolido na década passada.
  • Com o laboratório novo pronto, chegou a hora de produzir – e só aí foi descoberto que os registros sobre como fazer não estavam disponíveis.
  • Mas havia uma explicação: o tema era tão secreto, que poucas cópias da documentação foram produzidas. Será que o mesmo não deveria valer para todos os demais componentes do Trident?
  • E tinha mais uma explicação complementar: quase todos os técnicos envolvidos no projeto original já se aposentaram ou saíram da agência – quase um exemplo tirado diretamente de uma apostila de Gestão do Conhecimento, não?

Um comentarista citado na imprensa internacional disse que a copnsequência pode vir a ser uma “emergência nacional”, e outro comparou a situação com a de James Bond destruindo suas instruções imediatamente após lê-las, mas frisou: a NNSA não é James Bond.

Já a NNSA se manifestou oficialmente dizendo concordar, em linhas gerais, com o relatório apresentado pelo comitê de investigação. O que ele tinha a acrescentar? Que se ele tivesse um orçamento maior, poderia melhorar seu gerenciamento de riscos.

Concluindo

O projeto ainda está em andamento, e não sabemos como vai terminar. Mas exemplos reais de falhas (e, em especial, de falhas colossais) são interessantes na hora de promover mudanças internas nas organizações.


Trident é bom, mas prefiro Clorets.

Neste caso específico, há pelo menos duas causas principais que poderiam ter sido evitadas:

  • Pelo lado da Gestão de Conhecimento, a equipe que projetou o míssil em décadas anteriores poderia ter documentado e arquivado os dados do Fogbank tão bem quanto o fez com os demais componentes.
  • Pelo lado da Gestão de Projetos, a situação poderia ter sido identificada e tratada mais cedo, sem prejudicar tão profundamente o prazo e o orçamento (e, potencialmente, a própria conclusão do projeto).

Quantos destes projetos de mísseis Trident existem na sua organização? Quais deles estão sob sua responsabilidade? Está na hora de fazer algo a respeito, ou de procurar influenciar quem tem a autoridade para fazê-lo!

Para saber mais:

, por Augusto Campos
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12 Comentários até agora

  1. Leonardo Saraiva comentou:

    em March 10 2009 @ 12:31

    Como trabalho com informática vejo isso – quase que – todos os dias…

    E já ouvi pérolas como:
    - Só ler o código-fonte.
    - Documentação pra que?

  2. Rodrigo Ribeiro comentou:

    em March 10 2009 @ 12:38

    Ótimo post!

    Coincidência ou não…ontem li o artigo do Carlos Neponucemo “Não existe Papai Noel, nem Gestão do Conhecimento”, e hoje este post colocar outra idéia no caminho…comentei sobre este debate de idéias no meu blog em:
    http://desktopcompleto.blogspot.com/2009/03/gestao-do-conhecimento-existe-ou-nao.html

  3. augusto comentou:

    em March 10 2009 @ 12:48

    Rodrigo, achei impressionante (mas não em um sentido positivo) o outro artigo que citaste, questionando não apenas a existência da Gestão de Conhecimento, como ainda a possibilidade de haver gestão do intangível ou do que está por vir.

    Mas do teu texto em si eu gostei ;-)

    E, de uma forma ou de outra, este caso dos Tridents também não serve como prova da existência da Gestão do COnhecimento, apenas como evidência da demanda por ela!

  4. Fabrício Yutaka Fujikawa comentou:

    em March 10 2009 @ 13:57

    Rodrigo,

    Interessantíssimo o post! Algumas considerações me vieram à mente:

    - difícil imaginar que só depois de construírem o novo laboratório descobriu-se que não se tinha o projeto do Fogbank documentado;

    - você tem razão quando se pergunta se o grau de confidencialidade do Fogbank, que evitou a proliferação de cópias de sua documentação, não deveria ter sido aplicado aos demais componentes. Por outro lado, talvez a conclusão do seu post pudesse ser diferente: imagine que ele fosse de fato altamente confidencial e que evitar muitas cópias da documentação fosse a medida correta a se tomar. Neste caso, o que poderia ter sido feito diferente? Diria que faltou mapear que este era um conhecimento chave no projeto e que deveria ser garantida a sua transferência futura para novos projetos (ou a retomada do projeto original).

    Por último, sejamos justos, né? Na década de 1980, a Gestão do Conhecimento era incipiente – até mesmo no meio acadêmico. Concordo plenamente que este é um excelente exemplo da utilidade e importância da GC, mas não dá para nós cobrarmos esta ou aquela prática de GC – naquela época.

    Abraços!

  5. Fabrício Yutaka Fujikawa comentou:

    em March 10 2009 @ 13:59

    Ôpa… o destinatário do comentário era o Augusto, não o Rodrigo. Abs!

  6. Eder Almeida comentou:

    em March 10 2009 @ 14:00

    Olá a todos.

    Bom, eu tenho um míssel Trident no colo atualmente. E mesmo tendo consciência disso, eu não vou conseguir mudar o curso da perda do conhecimento.

    Trabalho atualmente em uma empresa de economia mista federal que está adotando um plano de demissão incentivada.

    Entrei para empresa em junho/08 e fui alocado no setor de gestão do ERP no que se refere a configurações contábeis.

    Com isso, me colocaram para “aprender” a função de um funcionário que irá se aposentar agora em maio/09. O único problema é: ele tem 34 anos de empresa e ABSOLUTAMENTE nada manualizado/mapeado/registrado/catalogado/etc.. NADA.

    Por mais que eu me esforce, por mais que eu me dedique , por mais que eu tentei registrar (mesmo que tardiamente) os procedimentos, e por mais que este funcionário me passe informações, eu tenho a completa certeza que a maior parte do conhecimento dele vai se perder.

    E o problema não é apenas no meu setor: ele ocorre em vários outros departamentos da empresa.

    A razão disso? Bom, aqui há a cultura de que “só serei valorizado se eu reter o conhecimento e ninguem mais conseguir fazer o meu trabalho. Assim eu também mantenho o meu emprego”.

    Pelo menos (ou infelizmente) agora o nível gerencial percebe o quanto esta política (que já perdura, no mínimo, a 3 décadas) foi prejudicial para a empresa.

    E no meu caso, eu tenho um grande agravante: enquanto o Trident não precisa ser utilizado tão cedo (e espero que NUNCA seja) o meu “míssel” sofre milhares de disparos por dia.

    Talvez eu tenha fugido um pouco do tema “gestão de processos”, mas só quis mostrar que, em qualquer esfera de uma organização, em qualquer atividade (rotineira ou um projeto) se a alta cupula não pensar em preservar o conhecimento, o próximo “disparo” do míssel pode falhar.

    Abraços

  7. Rodrigo Ribeiro comentou:

    em March 10 2009 @ 14:06

    Acho que o Carlos Nepomuceno foi bastante infeliz em seu artigo.

    Acredito que se a Gestão do Conhecimento não existisse ou não fosse importante, o próprio site do IMasters onde ele publicou o seu artigo, não existiria…=)

    Mas o seu post de hoje aqui no Efetividade foi muito bom e inspirador.

  8. Luciano Bitencourt comentou:

    em March 10 2009 @ 14:22

    Meu amigo, Grande texto.
    O que falta é incorporar elementos da sociologia filosofia e antropologia nos projetos de Gestão de Conhecimento. Participei de um projeto muito interessante há uns 7 anos. Uma empresa com tradição de décadas tinha perdido a credibilidade e precisava se reerguer. Ela atuava num nicho muito específico de mercado, mas contava com a fidelidade de milhares de “sócios” fidedignos aos seus serviços (bem ou mal). Foi, então, que detectamos a distância que a empresa havia adotado em relação à essas pessoas, seu maior tesouro. Resgatamos,então, alguns meios de comunicação que fizeram parte da história da empresa e desses “sócios”, associamos passado e futuro. Buscamos “revitalizar” muito do que havia sido o mundo deles anos atrás. E com esse conceito impregnado dos seguranças, passando pela Assessoria de Imprensa até a Presidência conseguimos retomar em 3 anos um posicionamento perdido.
    Quando tudo estava indo ok, muda-se diretoria, contrata-se um SuperMega MBA, manda-se tudo na planilha do Excel e simplesmente acaba-se com o projeto todo em menos de 12 meses. Hj, passado 4 anos, é interessante (por que não dizer triste) ver todo aqueles “sócios” acoados, com medo até de ir à empresa tomar uma simples informação.
    A tal reengenharia faz acontecer coisas como essas e a do Trident. O problema é que quando isso está em voga, como a própria Gestão de Conhecimento, ninguém questiona. Seguem todos o mesmo rumo.

  9. augusto comentou:

    em March 10 2009 @ 14:33

    Fabrício, eu concordo com a maioria das tuas colocações, e esclareço que certamente não acho que alguém deva ser culpado por não aplicar os conceitos de Gestão de Conhecimento na década de 1980. A culpa, se há, é por não ter preservado esta informação aplicando as mesmas técnicas aplicadas para as demais informações secretas do mesmo projeto, e que não se perderam.

    Eder, já vivi situações parecidas algumas vezes. Desejo sucesso a você e à companhia!

    Luciano: de fato, quando chega o “Super MBA” e tudo vai para o Excel, todas as iniciativas do gênero passam a sofrer riscos muito maiores!

  10. Nanny Costa comentou:

    em March 10 2009 @ 21:18

    Oi, Augusto.

    Trabalho numa empresa de grande porte e, recentemente estavamos discutindo sobre a evolução dos manuais de procedimento. No início (a 30 anos atrás), só existia um manual de operações que considerava todos os processos envolvidos. Com o tempo, a ISO 9000, o SGI, o PNQ e outros, o manual passou a ser dividido em procedimentos e instruções de trabalho complementares que foram sendo revisados e, atualmente, não apresentam nem metade das informações do manual inicial. Assim, para que certos tipos de tarefas e obras sejam realizadas, precisamos contratar o pessoal que já está aposentado, uma vez que não temos todos os registros necessários para realizar as atividades com segurança. É o preço que se paga pela falta de gestão do conhecimento.

  11. augusto comentou:

    em March 10 2009 @ 21:35

    É verdade, Nanny. Não gosto de usar como exemplo o lugar onde trabalho, mas anteriormente trabalhei em uma grande empresa, de porte nacional, que tinha seus procedimentos registrados em documentos chamados “práticas”. Lá por 1997, um fator externo fez boa parte dos funcionários antigos dar lugar a substitutos recém-contratados, e descobriu-se a mesma coisa: o que tinha por escrito não correspondia ao que seria necessário. E toca redesenvolver, redescobrir e reinventar!

Fique ligado!
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