Entrevista de emprego: "Qual seu maior defeito?"

Entrevistas de emprego mal conduzidas ou massificadas às vezes parecem seguir um verdadeiro script, quase como as danças populares nas festas juninas.

O entrevistador diz "olha a cobra!", o entrevistado diz "é mentira!". E a quadrilha prossegue: "Olha a chuva!", "Já passou!", e assim por diante, enquanto fazem evoluções que o candidato experiente já viu em tantos lugares, e das quais o entrevistador cansa de ouvir a mesma resposta, sem contar as dinâmicas que são as mesmas desde 1989, e o avaliador as viu inicialmente em uma fita de videocassete que já era velha.

Claro que nem sempre é assim - e quando não é, todo mundo sai ganhando: o empregador vai receber candidatos melhor avaliados, o avaliador não vai morrer de tédio, e o candidato vai ter um pouco mais de chance de mostrar suas qualidades reais, e não a mera habilidade de seguir um roteiro que viu nos classificados do jornal de empregos.

Há alguns anos publiquei um roteiro de perguntas de entrevista de emprego para quem está exposto a entrevistas assim, quer dar respostas relativamente seguras, mas sem entrar no script igual ao de todo mundo que lê os artigos que os jornais de empregos requentam a cada 5 semanas.

Desde lá os scripts alheios avançaram um pouco (e de vez em quando reconheço alguma das minhas respostas em alguns deles, e fico feliz), mas de modo geral o meu modelo ainda está atualizado - o que não me impede de, vez em quando, publicar um adendo - como este em que tratei da famigerada pergunta "Por que devemos te contratar?"

Qual o seu maior defeito?

E hoje é a vez de mais uma pergunta que, assim como a mencionada acima, até tinha algum sentido - mas anos de repetição e de candidatos sendo doutrinados a responder algo que (no entender de quem dá a dica) não é um defeito de verdade ("sou perfeccionista", "trabalho demais", "não gosto de encerrar o expediente quando ainda há pendências", etc.) acabaram comprometendo em boa parte sua eficácia prática, a não ser como teste para ver se o candidato está procurando ser genuíno ou está seguindo um roteiro.

Mas isso não é motivo para o roteiro de muitos entrevistadores mudarem, e toda semana eu recebo algum relato ou consulta de gente dizendo que recebeu esta pergunta na entrevista e não sabe qual seria "a resposta certa", como se existisse e fosse só uma - e torço para que no futuro, ao invés de me perguntar, parte deste contingente encontre este post numa busca on-line! ;-)

Eis o que eu respondi no guia de perguntas entrevistas de emprego de 2008:

Cuidado! A maioria das pessoas que já leu dicas de entrevista acha que deve escolher algo que não seja tão negativo assim, como “ser muito perfeccionista”, ou “exigir demais de si mesmo”. Na minha opinião, quando eu mesmo entrevisto, essas respostas prontas que disfarçam um ponto positivo como se fosse negativo passam uma idéia de artificialidade, e de ausência de respeito pelo interlocutor e pela empresa.

Diga que não consegue lembrar de uma característica profissional que possa comprometer seu desempenho no cargo para o qual está sendo considerado, e aí acrescente um ponto negativo real (no qual você pensou com antecedência), que faça sentido no contexto da empresa, mas que não vá comprometer suas chances de aprovação. Se possível, equilibre-o explicando a forma como você lida com este ponto negativo, e mencione um ponto positivo forte já em seguida. Mas não exagere escolhendo algo que possa soar pior do que é na realidade.

O que eu escrevi naquela ocasião está mantido: mesmo que a pergunta seja pouco inspirada, uma resposta genuína e segura é possível, mesmo sem recorrer à dica do jornal.

Mas nesta semana o Lifehacker ofereceu um complemento interessante que eu achei que valia a pena compartilhar com vocês: para escolher o tal ponto negativo real que não comprometa a sua avaliação, uma forma segura é escolher uma habilidade que lhe falte em outra área de conhecimento profissional especializado, que não seja a da vaga que você está procurando.

Se a vaga envolve controladoria ou contabilidade você não vai dizer que odeia matemática financeira, mas pode dizer algo que inviabilizaria o trabalho de um comissário de bordo ou de um auxiliar de enfermagem, por exemplo - e ainda acrescentar que foi isso que o motivou a escolher a contabilidade ou a gestão financeira como carreira, porque potencializa os seus pontos fortes e evita completamente este defeito que você escolheu para mencionar. Mas não vou dar exemplos específicos, senão vou estar reproduzindo o comportamento dos guias de jornal ;-)

Cuidado com a armadilha do silêncio

Já que estamos tratando do assunto de perguntas-padrão, vale um destaque: nem sempre o que o avaliador quer saber está no conteúdo da sua resposta: às vezes surgem perguntas com respostas óbvias, sem respostas certas, potencialmente embaraçosas, etc. apenas com o objetivo de provocar e observar a sua atitude: se foge do tema, se encara de frente, se traz uma resposta enlatada, se responde de forma genuína, se vai se expor ou se proteger, etc.

Pode muito bem ser o caso da pergunta do "seu maior defeito" ou "seu ponto fraco". Saber a resposta até interessa, mas a sua atitude ao receber a pergunta talvez seja um material muito mais rico para o entrevistador avaliar - portanto, responda conscientemente!

Para completar, às vezes a sua resposta virá acompanhada de mais uma ferramenta para gerar constrangimento e observar como você reage: uma encarada silenciosa, em que o entrevistador simplesmente continua olhando para você, sem fazer a próxima pergunta, nem comentar ou dar nenhuma dica visual de que concordou, discordou, espera algo mais, etc.

Trata-se de um teste - ou uma "pegadinha", e bastante gente cai: ao perceber a situação de stress, assumem que o entrevistador considerou a resposta errada, mentirosa, insuficiente, ridícula ou qualquer outra coisa, e começam a tentar “consertar”, muitas vezes com resultados desastrosos para si mesmo.

A intenção pode ser mesmo intimidar e provocar stress, para ver como o candidato se sai. Se tentarem isso com você, sugiro aguardar também alguns segundos calmamente, e em seguida não afirmar nada, apenas perguntar: “há algo mais que eu possa esclarecer sobre este ponto?” Se o entrevistador continuar em silêncio, simplesmente aguarde silenciosamente também, em atitude respeitosa e séria, prestando atenção a ele,como se estivesse dando a ele tempo para pensar, até que ele perceba que você não se intimidou e nem vai “se entregar”.

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