Escritório em Casa não é Central de Entretenimento!

Todos nós conhecemos, e muitos invejamos, os ambientes de trabalho montados pelas grandes empresas de tecnologia, que para estimular a criatividade e a motivação dos seus funcionários envolvidos no desenvolvimento de produtos e oportunidades, oferecem confortos impensáveis em muitos outros ambientes de trabalho.

Nas reportagens sobre os centros de desenvolvimento do Google, ou da Microsoft, vemos videogames, mesas de ping-pong, sucos, ginástica e tantas outras atividades, que aparentemente funcionam tanto para reduzir o desgaste das pessoas quanto para estimular sua produção e mantê-las no emprego.

Mas será que o mesmo tipo de solução funciona quando trabalhamos em um home office auto-administrado? Eu acredito que não totalmente, mas que há possibilidade de soluções intermediárias. Explicarei os principais motivos a seguir, por etapas.

  1. A dificuldade de afastar outros interessados: raramente a atividade desempenhada em um home office pode funcionar bem em um ambiente em que outras pessoas estão presentes e usufruindo deste tipo de conforto. Por esta razão, é comum ver a dúvida de quem monta seu escritório na sala da família e não sabe como lidar com o interesse de outros familiares em usar o mesmo espaço (ou a TV, ou o computador, etc.) para lazer ou estudos no mesmo horário. Raramente há uma solução que deixe todo mundo satisfeito, neste caso, e se você investir no potencial de entretenimento de seu home office, o desafio só aumenta.
  2. A ausência do controle pela expectativa dos colegas: a consciência da necessidade de ser produtivo é algo que todos temos em algum grau (e nossos clientes ou chefes exercem externamente sobre nós, também), mas a "pressão dos pares", ou a mera percepção da expectativa dos colegas, acaba sendo uma grande ajuda extra para que os profissionais em um ambiente favorável como estes não acabem passando a tarde inteira jogando Wii Sports. Em um ambiente isolado como um home office, a tendência natural de procrastinar, deixando os prazos correrem, pode ser uma grande aliada do funcionamento inverso destes "incentivos", e aí não haverá pressão externa que nos ajude a perceber que estamos enganando a nós mesmos e aos nossos clientes.
     


    Não é preciso muita estrutura para ser produtivo - basta evitar as armadilhas e ter o essencial

     

  3. A importância dos mecanismos internos de incentivo: se você trabalha por conta própria, ou se usa o escritório doméstico para atividades não-profissionais (como escrever uma dissertação de mestrado, ou estudar para um concurso), não deve esquecer da riqueza motivacional representada por mecanismos internos de incentivo, na forma de uma recompensa auto-concedida ao cumprir determinadas metas ou completar desafios. Para muitos profissionais, isso se traduz em permitir a si mesmo brincar meia hora com os filhos, descer para um passeio, ligar a TV ou jogar uma partida de videogame - atividades que não seriam grande recompensa se pudessem ser desfrutadas a qualquer momento durante o expediente, sem falar no efeito negativo sobre a produtividade já abordado acima.
  4. Por falar nos filhos... Quando há crianças na casa em que está instalado o home office, o desafio das interrupções e da produtividade fica muito maior. Para elas, a própria presença dos adultos trabalhando, e dos seus instrumentos de trabalho (material de escritório, canetas, computador) já é atrativa o suficiente, mas a presença de outras formas de entretenimento (videogame, TV e outros "brinquedos") no mesmo ambiente torna a situação ainda mais inadministrável (veja também: "Home office: a convivência da família com o escritório doméstico")

Talvez os 4 motivos acima pudessem ser sintetizados assim: "evitar as interrupções e a tendência a procrastinar já é difícil o suficiente sem estas iscas adicionais"! Mas se disséssemos desta maneira, deixaríamos de poder explicitar que muitos de nós optaram por viabilizar alguma maneira de trabalhar em um home office justamente para poder se dar ao luxo de escolher aceitar algumas interrupções familiares e algumas oportunidades bem selecionadas de deixar o trabalho para depois.

E "se dar ao luxo" é uma expressão que vem mesmo a calhar, pois todas estas considerações só fazem sentido para quem pode se dar ao luxo de ter um ambiente à parte para seu home office. Quem precisa se contentar em trabalhar na mesma sala em que as crianças brincam ou os colegas assistem TV já sabe que sua escolha é se adaptar, ou encontrar regras de separação cuja implementação é custosa e frágil.

A minha solução

Tenho a felicidade de contar, desde 2008, com um escritório doméstico fisicamente separado do restante da casa - é um cômodo à parte, mobiliado de forma planejada para isso, e que assim acaba propiciando o grau adequado de separação, sem impedir o contato familiar.

Mesmo assim, as horas que disponho para fazer andar minhas iniciativas pessoais no home office são relativamente escassas, e certamente competem com o meu interesse no convívio familiar e até mesmo com as opções de entretenimento doméstico, das quais várias certamente teriam lugar para caber no espaço do escritório.


Escrivaninha do meu home office, em foto tirada logo após a mudança - qualquer dia destes eu detalho melhor as soluções que adotei

Embora eu tenha uma TV no escritório, e geralmente a use para assistir noticiário, há bastante tempo resisto a conectar a ela algum videogame, brinquedo que reservo para a sala, onde pode ser usado por mais pessoas e deixa de ficar permanentemente ao meu alcance, reduzindo assim seu potencial de interromper meu trabalho "só para uma partidinha".

Já tive um sofá no escritório, e também era um grande desafio, pois eu recorria a ele na hora em que precisava parar para pensar em algo, e muitas vezes terminava de uma forma menos produtiva, com uma soneca não-planejada. Em uma das mudanças de endereço, acabei trocando por uma poltrona confortável (mas onde não dá para deitar), e passou a funcionar melhor.

Para completar, sei que o escritório doméstico, por sua necessidade de se manter em condições de operação, é a solução a que toda a família recorre na hora em que alguém não encontra a fita adesiva, a tesoura, o marca-texto ou um cartucho de impressão. Isso é algo que se resolve agindo externamente, garantindo que os estoques e almoxarifados da casa estejam bem supridos e controlados sempre, e assim ninguém precise recorrer ao material de expediente já lotado no escritório ;-)

E a sua solução

A minha solução tem diversas peculiaridades: trabalho no home office só em tempo parcial, a atividade é por conta própria, o retorno permite investir em mobília apropriada, eu dispunha de espaço para dedicar um cômodo exclusivamente a esta finalidade, em casa não há crianças, etc.

A sua precisa ser adaptada à sua circunstância, e a consciência de como ela pode vir a melhorar pode ser um incentivo a mais para que parte do produto gerado pelo trabalho no home office seja reinvestida nele mesmo.

Mas se hoje você estiver se sentindo improdutivo no home office pela presença frequente de outras pessoas no mesmo ambiente devido ao seu potencial de entretenimento, ou mesmo pela tentação constante das opções de entretenimento presentes, talvez seja o caso de repensar a situação com alguma urgência. Medidas para regular a maneira como outras pessoas circulam pelo ambiente podem ser custosas para o relacionamento, assim como medidas para refrear a sua própria indisciplina são difíceis de implementar, mas nada disso é razão para que elas não sejam estudadas e avaliadas!

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