Escritório em Casa não é Central de Entretenimento!

Augusto Campos em 15/10/2009

Todos nós conhecemos, e muitos invejamos, os ambientes de trabalho montados pelas grandes empresas de tecnologia, que para estimular a criatividade e a motivação dos seus funcionários envolvidos no desenvolvimento de produtos e oportunidades, oferecem confortos impensáveis em muitos outros ambientes de trabalho.

Nas reportagens sobre os centros de desenvolvimento do Google, ou da Microsoft, vemos videogames, mesas de ping-pong, sucos, ginástica e tantas outras atividades, que aparentemente funcionam tanto para reduzir o desgaste das pessoas quanto para estimular sua produção e mantê-las no emprego.

Mas será que o mesmo tipo de solução funciona quando trabalhamos em um home office auto-administrado? Eu acredito que não totalmente, mas que há possibilidade de soluções intermediárias. Explicarei os principais motivos a seguir, por etapas.

  1. A dificuldade de afastar outros interessados: raramente a atividade desempenhada em um home office pode funcionar bem em um ambiente em que outras pessoas estão presentes e usufruindo deste tipo de conforto. Por esta razão, é comum ver a dúvida de quem monta seu escritório na sala da família e não sabe como lidar com o interesse de outros familiares em usar o mesmo espaço (ou a TV, ou o computador, etc.) para lazer ou estudos no mesmo horário. Raramente há uma solução que deixe todo mundo satisfeito, neste caso, e se você investir no potencial de entretenimento de seu home office, o desafio só aumenta.
  2. A ausência do controle pela expectativa dos colegas: a consciência da necessidade de ser produtivo é algo que todos temos em algum grau (e nossos clientes ou chefes exercem externamente sobre nós, também), mas a "pressão dos pares", ou a mera percepção da expectativa dos colegas, acaba sendo uma grande ajuda extra para que os profissionais em um ambiente favorável como estes não acabem passando a tarde inteira jogando Wii Sports. Em um ambiente isolado como um home office, a tendência natural de procrastinar, deixando os prazos correrem, pode ser uma grande aliada do funcionamento inverso destes "incentivos", e aí não haverá pressão externa que nos ajude a perceber que estamos enganando a nós mesmos e aos nossos clientes.
     


    Não é preciso muita estrutura para ser produtivo - basta evitar as armadilhas e ter o essencial

     

  3. A importância dos mecanismos internos de incentivo: se você trabalha por conta própria, ou se usa o escritório doméstico para atividades não-profissionais (como escrever uma dissertação de mestrado, ou estudar para um concurso), não deve esquecer da riqueza motivacional representada por mecanismos internos de incentivo, na forma de uma recompensa auto-concedida ao cumprir determinadas metas ou completar desafios. Para muitos profissionais, isso se traduz em permitir a si mesmo brincar meia hora com os filhos, descer para um passeio, ligar a TV ou jogar uma partida de videogame - atividades que não seriam grande recompensa se pudessem ser desfrutadas a qualquer momento durante o expediente, sem falar no efeito negativo sobre a produtividade já abordado acima.
  4. Por falar nos filhos... Quando há crianças na casa em que está instalado o home office, o desafio das interrupções e da produtividade fica muito maior. Para elas, a própria presença dos adultos trabalhando, e dos seus instrumentos de trabalho (material de escritório, canetas, computador) já é atrativa o suficiente, mas a presença de outras formas de entretenimento (videogame, TV e outros "brinquedos") no mesmo ambiente torna a situação ainda mais inadministrável (veja também: "Home office: a convivência da família com o escritório doméstico")

Talvez os 4 motivos acima pudessem ser sintetizados assim: "evitar as interrupções e a tendência a procrastinar já é difícil o suficiente sem estas iscas adicionais"! Mas se disséssemos desta maneira, deixaríamos de poder explicitar que muitos de nós optaram por viabilizar alguma maneira de trabalhar em um home office justamente para poder se dar ao luxo de escolher aceitar algumas interrupções familiares e algumas oportunidades bem selecionadas de deixar o trabalho para depois.

E "se dar ao luxo" é uma expressão que vem mesmo a calhar, pois todas estas considerações só fazem sentido para quem pode se dar ao luxo de ter um ambiente à parte para seu home office. Quem precisa se contentar em trabalhar na mesma sala em que as crianças brincam ou os colegas assistem TV já sabe que sua escolha é se adaptar, ou encontrar regras de separação cuja implementação é custosa e frágil.

A minha solução

Tenho a felicidade de contar, desde 2008, com um escritório doméstico fisicamente separado do restante da casa - é um cômodo à parte, mobiliado de forma planejada para isso, e que assim acaba propiciando o grau adequado de separação, sem impedir o contato familiar.

Mesmo assim, as horas que disponho para fazer andar minhas iniciativas pessoais no home office são relativamente escassas, e certamente competem com o meu interesse no convívio familiar e até mesmo com as opções de entretenimento doméstico, das quais várias certamente teriam lugar para caber no espaço do escritório.


Escrivaninha do meu home office, em foto tirada logo após a mudança - qualquer dia destes eu detalho melhor as soluções que adotei

Embora eu tenha uma TV no escritório, e geralmente a use para assistir noticiário, há bastante tempo resisto a conectar a ela algum videogame, brinquedo que reservo para a sala, onde pode ser usado por mais pessoas e deixa de ficar permanentemente ao meu alcance, reduzindo assim seu potencial de interromper meu trabalho "só para uma partidinha".

Já tive um sofá no escritório, e também era um grande desafio, pois eu recorria a ele na hora em que precisava parar para pensar em algo, e muitas vezes terminava de uma forma menos produtiva, com uma soneca não-planejada. Em uma das mudanças de endereço, acabei trocando por uma poltrona confortável (mas onde não dá para deitar), e passou a funcionar melhor.

Para completar, sei que o escritório doméstico, por sua necessidade de se manter em condições de operação, é a solução a que toda a família recorre na hora em que alguém não encontra a fita adesiva, a tesoura, o marca-texto ou um cartucho de impressão. Isso é algo que se resolve agindo externamente, garantindo que os estoques e almoxarifados da casa estejam bem supridos e controlados sempre, e assim ninguém precise recorrer ao material de expediente já lotado no escritório ;-)

E a sua solução

A minha solução tem diversas peculiaridades: trabalho no home office só em tempo parcial, a atividade é por conta própria, o retorno permite investir em mobília apropriada, eu dispunha de espaço para dedicar um cômodo exclusivamente a esta finalidade, em casa não há crianças, etc.

A sua precisa ser adaptada à sua circunstância, e a consciência de como ela pode vir a melhorar pode ser um incentivo a mais para que parte do produto gerado pelo trabalho no home office seja reinvestida nele mesmo.

Mas se hoje você estiver se sentindo improdutivo no home office pela presença frequente de outras pessoas no mesmo ambiente devido ao seu potencial de entretenimento, ou mesmo pela tentação constante das opções de entretenimento presentes, talvez seja o caso de repensar a situação com alguma urgência. Medidas para regular a maneira como outras pessoas circulam pelo ambiente podem ser custosas para o relacionamento, assim como medidas para refrear a sua própria indisciplina são difíceis de implementar, mas nada disso é razão para que elas não sejam estudadas e avaliadas!

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Comentários arquivados

Comentário de joao paulo em 15/10/2009 às 10:14:40

Muito boa Augusto, acompanho sempre seu blog, estou esperando ansiosamente esse detalhamento das suas soluções para montagem do teu home office já que estou montando aos poucos o meu.

Comentário de Anderson Fortes em 15/10/2009 às 11:25:24

Augusto que legal esse artigo que vc escreveu, vc está de parabéns, mais o que me chamou muito a atenção foi aquela ultima imagem que vc postou...uma maleta gigante que quando aberta se torna uma home office, caramba que massa, onde será que posso comprar uma dessas, assim poderia levar minha home office pra qualquer canto da casa. ;)

Comentário de augusto em 15/10/2009 às 14:28:53

Anderson, também me chamou a atenção, resolveria o problema de muita gente! João Paulo, aos poucos vou revelando detalhes sobre minha própria solução de home office. Mas vale lembrar que ela funciona bem para mim, e pode não ser o ideal para outras pessoas!

Comentário de Luiz em 15/10/2009 às 16:05:00

Muito bom assunto Augusto. Escritório em casa é uma realidade que só tende a aumentar, ainda mais em cidades em que o transito é complicado. Eu também acredito que as principais dificuldades estejam em: convencer as pessoas de que há um profissional trabalhando no "escritório" em casa. Deve haver esta noção de espaço e respeito. Da mesma forma como se estivesse em uma empresa, o resto da família não teria total acesso à pessoa na empresa. Muita disciplina para resistir aos 5 min a mais de sono, o café na cama, trabalhar com roupa de fim de semana; Cuidar para não misturar as contabilidades da casa com do escritório. Conheço essas dificuldades por mim, quando ainda morava na casa dos meus pais e estava fazendo trabalhos. É dificil de resistir ao chimarrão com os pais, à televisão, aos amigos que convidam para sair. E se as pessoas estão fazendo barulho. Televisão num volume elevado, aquelas pessoas que dão gargalhadas altas ou falam para que os vizinhos ouçam. A revista Pequenas Empresas e Grandes Negócios do mês de agosto deste ano tem uma matéria que aborda o sucesso de algumas mulheres que abriram o próprio negócio em casa. Que, por sinal, é muito interessante. Estas dicas são excelentes. Para todos, acredito. Dou os parabéns às pessoas que conseguem ter tamanha paciência e disciplina. Eu ainda não tenho. A mesa em que o computador se encontra, geralmente fica cheia de cadernos, livros, CDs, folhas soltas.

Comentário de Bruno em 15/10/2009 às 16:27:22

Augusto! Tu estás de parabéns, pois, como sempre, seus artigos sobre home office são excelentes e dão boas ideias para quem estuda e trabalha em casa - minha situação. Não me lembro se já dei a dica em algum outro comentário, mas, de qualquer modo, vale de novo: o site http://wherewedowhatwedo.com/ expõe home offices de várias pessoas que queiram compartilhar seus locais de trabalho. Para quem está montando home offices, ou sempre inovando, procurando aperfeiçoar, é uma mão na roda! Abraço!

Comentário de Daniel em 15/10/2009 às 16:45:35

esse tema do home office é sempre de muito interesse para mim, mesmo pq eu tou em fase de começar a reforma numa sala que aluguei para manter minha mini empresa de manutenção. eu espero tambem pela explanação de sua solução pq meu espaço é relativamente curto.

Comentário de Rafael em 15/10/2009 às 19:42:09

Então... Já fui um adepto do home office e passei alguns meses me sentindo mau pelo fraco controle que tinha sobre as grandes distrações que existiam: Tv, Geladeira, Cama, Video Game... tudo isso porque eu trabalhava em casa. Acho que é dever citar também dos vícios virtuais: Redes de relacionamento, vícios de pesquisa... Depois de fazer metade do que foi dito acima e de me policiar bastante eu conseguia manter uma constante de produção que nunca pensei que fosse possível. Hoje, lotado em uma sede da empresa, sinto falta da liberdade que tinha, de acordar 30 minutos antes para tomar um banho e preparar um ótimo café. Hoje são pelo menos 80 minutos para dar tempo de chegar na metade do caminho ;D Se tiver controle vale a pena ser um profissional do lar ;D

Comentário de augusto em 15/10/2009 às 20:04:41

Bruno, boa a dica do site! Gosto muito de visitar, assim como gosto de ver os home offices que o Lifehacker destaca. Luiz, esse negócio de "resistir" ao chimarrão com os pais, etc., é importante mas também é relativo - afinal, uma das grandes vantagens de trabalhar em casa é poder ocasionalmente se permitir estes luxos. É como diz o ditado: a diferença entre o remédio e o veneno às vezes é apenas a dosagem! Daniel, a apresentação da minha solução ainda virá, mas talvez ela não sirva para o seu caso - meu escritório atual não tem mais bancada, por exemplo - e acho que pro seu caso ela pode vir a ser essencial, não? Rafael, eu concordo: o controle é a chave.

Comentário de Luiz Fernando Venturelli em 15/10/2009 às 22:40:32

Fala Augusto, eu sofro também com o preconceito dos outros moradores da casa, por não conseguirem entender que consigo trabalhar em casa e eles não. Outro ponto é quando não estou viajando ou fazendo contato pessoal com o cliente, estou aqui, passo em média 6hrs a 5hrs por dia trabalhando no home-office e sempre quando termino o horário estipulado para trabalhar dou um passeio na rua, é muito importante se desligar do ambiente, para termos aquela sensação de que não estamos mais trabalhando, tenho alguns amigos que simplesmente não sabem quando estão trabalhando e quando não estão. Segue uma foto do meu home-office. http://img32.imageshack.us/img32/5389/27082009105.jpg Site legal pra quem gosta de home-office http://www.wherewedowhatwedo.com/

Comentário de Leandro em 16/10/2009 às 14:26:57

Boa postagem Augusto, você foi direto ao ponto, lidar com nossos "concorrentes internos"(familiares, sofás etc) no home office é um dos nossos principais desafios. Torná-los nossos "colaboradores" é um desafio maior ainda..rsrs. Nessas situações procuro retirar todo "entreterimento" do local.

Comentário de Rodrigo Gomes em 17/10/2009 às 23:59:26

haha muito bom! o meu home-office é bem simples, não tem TV então não assisto tv praticamente, me atualizado pela net, mas tenho jogos no próprio pc que ajudam bastante na minha criatividade, devo admitir que trabalho com mais entusiamo depois de umas partidas.

Comentário de augusto em 18/10/2009 às 21:14:52

Luiz, legal a foto. Dá pra ver, pela situação das prateleiras, que ainda cabe muita coisa, caso você venha a precisar! Esse problema de não saber quando "acaba o expediente" é algo que eu quero abordar mais detalhadamente outro dia, em um artigo específico (já escrevi sobre isso anteriormente, também). Leandro, legal a denominação de "concorrentes internos"! Rodrigo, é isso mesmo - o que funciona para você é o que você deve manter e aperfeiçoar. Se o jogo estimula, jogue! ;-)