“Trabalhos escolares prontos”

Os trabalhos escolares prontos são a “solução fácil” para o problema errado, que surge quando o estudante acredita que está no curso apenas para completá-lo e ser aprovado, e não para aprender ou para se capacitar a enfrentar algum desafio externo.

É uma situação típica também no planejamento organizacional, quando as pessoas encarregadas de executar a estratégia acabam perdendo o foco dos objetivos, e enxergam apenas os indicadores e suas metas departamentais ou individuais, e usam isso para justificar a adoção de “soluções fáceis” que deixam de lado o interesse real, apenas para garantir o batimento da meta – equivalente ao aluno que deixa de lado todas as demais considerações e passa a se preocupar apenas em alcançar a média mínima e a frequência obrigatória.

A oferta é grande porque a procura cresce

Cada vez mais percebo, via imprensa e até mesmo via observação direta (experimente pesquisar por trabalhos escolares prontos no Google…), que a busca por downloads de trabalhos acadêmicos (incluindo TCCs, relatórios de estágio e até monografias prontas!) é um fenômeno crescente. A imprensa mostrou recentemente os detalhes de uma variação muito mais complexa, que é a da monografia ou relatório final escritos sob encomenda, mas o que ocorre todos os dias é uma modalidade bem mais simples: o aluno que recorre ao plágio puro e simples de trabalhos prontos disponíveis para download na Internet.

Mas a causa não é puramente a “malandragem” do aluno

Embora alunos, professores e o sistema acadêmico como um todo tenham sua parcela (em tamanhos variados) de culpa, todos se unem para agir como se o problema fosse puramente “malandragem” dos alunos, e como se as raras “punições exemplares” aplicadas a alunos pegos colando ou plagiando trabalhos alheios fosse uma solução para a questão. A punição é importante, mas sozinha não resolve nada – duvido até mesmo que ela seja eficaz, na maioria dos casos, para evitar que os próprios envolvidos, ou as pessoas mais próximas, repitam o seu “crime” na próxima oportunidade que tiverem.

Só que o problema é bem mais amplo, e em alguns casos começa até mesmo em casa: não sei se estou em algum desvio estatístico ou não, mas conheço várias mães que não apenas fazem boa parte dos trabalhos escolares dos seus filhos que cursam o ensino fundamental (resolvendo a questão imediata das notas e de “passar de ano”, mas não o objetivo real), como ainda por cima o fazem recorrendo ao plágio de trabalhos prontos e de artigos da Wikipédia e outras fontes usuais cujos textos os professores já devem estar carecas de tanto rever – mas aparentemente não rejeitam nem mesmo nos casos de cópia completa, direta e não-atribuída.


A família incentiva, e o avaliador finge não perceber que já viu a essência daquela obra em outro lugar…

E como se o incentivo materno e a tolerância dos professores e avaliadores não fosse suficiente, ainda há uma série de outras causas, incluindo:

  1. Matérias e trabalhos irrelevantes: incluindo também aqueles que são relevantes mas não conseguem fazer com que esta relevância seja percebida pela maioria dos alunos, que acabam cursando a matéria porque faz parte do currículo obrigatório (ou para alcançar seus créditos), ou que são obrigados a fazer trabalhos e pesquisas cuja relação com o objetivo do curso não é clara. O que nos conduz aos…
  2. Trabalhos cujo único objetivo é “dar nota”: são os trabalhos escolhidos pelo seu nível de complexidade (fácil demais, ou suficientemente complexo, à escolha do professor), sobre temas secundários e cuja execução não acrescenta conhecimento valioso ao aluno. Às vezes é assumido pelo professor como sendo simplesmente “para complementar a nota”, e conduz naturalmente à execução descomprometida.
  3. Materiais, cursos e trabalhos sem renovação: Se as aulas, as transparências, os exercícios, os trabalhos e as provas são as mesmas, reaproveitadas semestre após semestre ao longo de anos, concluo que o professor deveria estar consciente de que esta acomodação do agente é quase um convite a que o paciente também se acomode e busque um jeito de reaproveitar as respostas.
  4. Trabalhos cujo nível de complexidade não é proporcional à aprendizagem pretendida: Este é um fenômeno do qual fui vítima constante na pós-graduação que terminei de cursar recentemente. O professor de uma matéria de 12 horas-aula queria que os alunos exercitassem sincronização de cronogramas, mas para isso passava um trabalho relacionado à logística petrolífera brasileira, cuja execução dependia de levantarmos informações reais e atualizadas sobre as plataformas de petróleo, oleodutos, navios petroleiros, monobóias, refinarias, distribuição, varejo e consumo do petróleo e seus derivados no Brasil, para aí projetar alguma solução, ao longo de 10 dias. O convite claro à fraude (neste caso, não pelo plágio, mas pela invenção de dados para usar no lugar dos dados reais) fica mais chato quando se percebe a desnecessidade: o esforço maior acabaria sendo o do levantamento dos dados (não relacionados ao objetivo da cadeira ou do curso), e uma vez tendo os dados em mãos, a aplicação (aí sim relacionada ao objetivo) chegava a ser trivial.
  5. Orientação a indicadores: é o fenômeno já descrito acima, em que escola e família agem como se a nota e a frequência mínima (para “passar de ano”) fossem o objetivo.

Mas o aluno também é agente desta situação

Claro que também há as causas relacionadas ao comportamento dos próprios estudantes, incluindo o despreparo, o mandrionismo e a preguiça pura e simples.

Há pesquisas a respeito (veja detalhes e referência sobre uma delas abaixo), e elas indicam que há mais causas neste lado da equação também, incluindo:

  1. Ignorância: mesmo tendo consciência do que é plágio, e de que é errado, os alunos aprendem pelo exemplo, especialmente nas séries iniciais. As famílias apóiam e até facilitam a cópia, os professores toleram sem nem mesmo criticar, e a questão ética do ato acaba sendo aprendida da maneira errada – a ponto de gerar indignação quando os professores mais exigentes, anos mais tarde, rejeitam trechos copiados sem atribuição.
  2. “Síndrome do estudante”: em Gerenciamento de Projetos, recebe o nome de “Síndrome do Estudante” a tendência natural de deixar a execução das tarefas para o último dia. E quando os estudantes fazem isso, e mesmo assim querem entregar o “seu trabalho” no prazo, o plágio acaba sendo a opção de muitos.
  3. Pressão pela produção: É outra natureza da perda do foco: ao invés de concentrar esforços no aprendizado, a instituição busca ter alunos-estrela (sejam vestibulandos ou doutorandos…), a ponto de pressioná-los a realizar mais do que seria razoável – e aí os caminhos “alternativos” acabam sendo tentados por eles também.
  4. Rebeldia e questionamento: Como resposta a um sistema desestruturado (como os dos exemplos acima, de trabalhos e cursos mal ajustados às necessidades), ou mesmo como a característica atitude questionadora típica de estudantes, o aluno acaba recorrendo à fraude, às vezes racionalizando a situação, como se os erros alheios que ele identifica justificassem os seus próprios.

Um ponto de vista acadêmico e um chamado à ação

Eu conheci hoje, via Prof. @marrcandré esta adaptação do Prof. Palazzo para o texto “Plagiarism detection and prevention: final report on the JISC electronic plagiarism detection project”, de Chester, G. (2001).

Além de me motivar a escrever sobre o tema com minha própria experiência de aluno e com minhas próprias observações, o texto do Prof. Palazzo me pareceu digno de ser divulgado, porque pode fazer com que pais, professores e até mesmo alunos interessados e bem-informados repensem algumas atitudes que nem sempre são questionadas.

No (infelizmente comum) caso das famílias e professores desinteressados na educação dos alunos, e dos alunos desmotivados ou sem condições de receber uma educação com qualidade adequada, pouco há que eu possa propor, embora eventualmente os artigos sobre o desafio de liderar equipes com pessoas desinteressadas e sobre como liderar nos momentos difíceis possam ajudar quando houver alguém disposto a fazer alguma coisa mesmo nas condições mais adversas.

, por Augusto Campos
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17 Comentários até agora

  1. Andre Grutzmann comentou:

    em October 20 2009 @ 20:30

    Prezado Augusto,

    Uma coisa é certa… alguém no mercado de trabalho vai ter de fazer o trabalho por conta própria. Será o cara
    que plagiou? Hum, duvido…
    Já cansei de encontrar trabalhos de meus alunos plagiados fazendo algumas pesquisas rápidas no Google. Por isso, é que hoje em dia boa parte dos professores tem optado por trabalhos manuscritos feitos em sala de aula. Além disso, provas bem elaboradas, descritivas ou objetivas, tem o seu lugar.
    Claro, existem também professores tão relapsos como os alunos… infelizmente, boa parte dos alunos gosta deles porque são “bonzinhos.”
    O mais engraçado de tudo isso é que há muito tempo vários alunos solicitam mais atividades práticas nas disciplinas. Quando isto passa a acontecer, eles fazem o que? Copiam trabalhos… que profissionais serão estes?
    Mas por que isto acontece? Muitas vezes porque nossos alunos chegam até um curso superior com sérias deficiências de leitura e interpretação. Aí, qualquer texto será difícil… e a culpa recai sobre os trabalhos extensos.
    Já tive alunos que não conseguiam interpretar o conteúdo de uma frase, quanto mais de um texto inteiro.
    Bem, para aqueles que tiverem esta dificuldade como professores, recomendo o Farejador de Plágio, software desenvolvido por um professor colega meu.
    http://www.farejadordeplagio.com.br/

    Abraços e parabéns pelo blog!

  2. REGINA comentou:

    em October 25 2009 @ 15:36

    CARA, O COMENTÁRIO DO TIAGO AFIRMA QUE “ESCOLA NO BRASIL NÃO EDUCA” E QUEM DIZ QUE ESCOLA TEM QUE EDUCAR?????? AFFF “EDUCAÇÃO” É DEVER DA FAMÍLIA A ESCOLA PODE AUXILIAR, CLARO, MAS NÃO É OBRIGAÇÃO, APESAR DE ESTAR SEMPRE CONTRIBUINDO… QUEM COLOCOU FILHO NO MUNDO QUE EDUQUE, OS PROFESSORES JÁ TEM O SEUS PARA EDUCAR…

  3. Emilia comentou:

    em September 27 2010 @ 20:01

    Tenho um blog e gostaria muito de colocar essa matéria dos trabalhos escolares prontos., Como faço? Sou professora e pedagoga esse assunto é ótimo pra divulgar. Aguardo informações. Não sou muito prática nesse´negócio de informática ainda rsrsrsrsr.

Fique ligado!
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