Como economizar: crie o seu Fundo de Reserva pessoal

Augusto Campos em 9/03/2009

Fundo de Reserva é um montante mantido à parte, sempre disponível para cobrir despesas extraordinárias, emergenciais ou imprevisíveis. Toda pessoa ou família pode ter um fundo de reserva, mas para formá-lo é necessário aplicar mensalmente uma parcela do orçamento, e fixar critérios no que diz respeito ao seu uso e manutenção.

Ter um Fundo de Reserva, ou Fundo de Emergência, seja ele pessoal ou familiar, é uma providência relativamente cara (tanto no sentido financeiro quanto no econômico), mas cujo valor aparece claramente não apenas nas emergências: dispor de reservas prontamente acessíveis acrescenta muita tranquilidade e facilita decisões que seriam muito mais sofridas se você estivesse, como tantas pessoas, sempre a não mais do que um contracheque de distância da ausência de opções.

Em especial, ao estudar ética no trabalho e as questões relacionadas ao assédio moral, percebe-se que a presença de um fundo de reserva aumenta a chance de o funcionário recusar-se a ser co-partícipe destes comportamentos, pois pode encarar melhor a possibilidade de a opção pela ética acabar prejudicando a sua continuidade na posição atual.

Em um artigo anterior sobre a preparação para o recrudescimento da situação do mercado de trabalho nesta crise global que atravessamos ("Segurando seu emprego, ao mesmo tempo em que se prepara para o caso de ser demitido"), a questão dos fundos de reserva também foi abordada, pois é óbvia a relação entre as duas questões.

Mas, em meio à crise, será que é a hora certa de começar um Fundo de Reserva?

Não, na verdade a hora certa seria antes da crise, se você soubesse que ela viria. Mas deixar de iniciar uma medida preventiva só porque já estamos em uma crise é um argumento que se sustentaria bem melhor se soubéssemos que já chegamos ao fundo do poço - e raramente é o caso.

Não sabemos se a crise atual vai se agravar, nem quanto tempo vai durar. Não sabemos quanto tempo após seu término chegará a próxima. Medidas preventivas são difíceis a qualquer tempo, e só são efetivamente apreciadas na hora de fazer uso delas.

Começando o seu Fundo de Reserva

Manter um fundo de reserva é relativamente simples, mas começá-lo envolve decisões complicadas - tanto no aspecto motivacional, quanto no da efetiva implementação.

Em especial, é necessário antes saber diferenciar o que é consumo, o que é investimento e o que é um efetivo Fundo de Reserva. A idéia essencial de um Fundo de Reserva é que ele esteja disponível para uso imediato, e por isso precisa ser mantido em alguma aplicação com alta liquidez e baixo risco, o que geralmente conduz também ao baixo rendimento. Ter um imóvel, outro bem ou qualquer investimento que não possa ser convertido em dinheiro rapidamente não constituem bons fundos de reserva, embora possam ser opções de investimento.

Por outro lado, possuir o imóvel onde se mora, um carro ou outro bem que esteja em uso em geral se classifica muito mais como consumo do que como investimento (embora dê alguma segurança), e fica longe de ser um Fundo de Reserva, a não ser que seu uso seja completamente supérfluo (e você possa abrir mão de um dia para outro), e a liquidez dele no mercado seja alta e permanente - o que é raro, especialmente em crises.

Mas guardar moeda corrente em casa (alternativa de altíssima liquidez) geralmente é inseguro e obriga a abrir mão até mesmo das baixas taxas de remuneração que as instituições oferecem a quem quer guardar dinheiro mantendo a liquidez. Portanto, após decidir implantar o fundo, a sua primeira decisão importante deve ser onde guardá-lo, equilibrando o interesse em segurança, em manter a atualização monetária, e em liquidez. Para um exemplo: Fundos de Reserva de condomínios usualmente são aplicados em cadernetas de poupança e similares de instituições consideradas sólidas, abrindo mão de rendimentos superiores em prol da segurança e disponibilidade imediata.

A segunda decisão importante é a definição de quanto se deseja vir a ter no Fundo de Reserva, quando ele estiver completo. Devido ao aspecto motivacional, o ideal é definir um plano escalonado, com uma meta para 6 meses, outra para 1 ano, e outra para o final do segundo ano, por exemplo. As metas devem considerar a sua capacidade de gerar poupança, seja pela ampliação da receita pessoal (geralmente mais difícil), pela redução de despesas (menos difícil) ou pelo redirecionamento do que seria aplicado em outros investimentos (mais fácil).

Um possível plano de metas pode ser: em 6 meses ter o suficiente para pagar um mês de suas despesas integrais, ao final do ano ter o equivalente a um mês e meio de seus rendimentos integrais reais, e ao final do segundo ano ter capacidade de quitar todos os seus débitos (aluguéis, prestações, financiamentos, mensalidades, etc.) pendentes por 2 meses, e ainda ficar com um saldo disponível equivalente a 2 meses de rendimentos integrais e livres - o que daria um bom fundo de reserva para manter abertas suas opções após emergências. A literatura especializada usualmente define como valor final um total equivalente a 6 a 8 meses de seu rendimento mensal, mas sinta-se livre para considerar se após 2 ou 3 meses você não terá condições de tornar líquidos outros investimentos de maior rentabilidade em que poderá empregar estes recursos adicionais.

E note que as medidas podem ser tomada simultaneamente em 2 sentidos: ao mesmo tempo em que se amplia a poupança, pode-se buscar reduzir conscientemente o número de compras parceladas e financiamentos que se inicia, por exemplo.

E aí chegamos à terceira decisão importante, potencialmente a que tem maior impacto sobre a motivação, e a que envolve mais disciplina: quanto poupar por mês. Só você pode avaliar do que abrir mão, quanto desviar de outras aplicações, ou se é possível ampliar a renda mensal. O valor escolhido deve corresponder ao plano de metas, naturalmente.

Considerando a disciplina e a motivação, caso a fonte do fundo de reserva seja a redução de despesas supérfluas, pode fazer sentido realizar os depósitos semanalmente, em quantias menores, mesmo que os seus rendimentos sejam mensais. Você verá o bolo crescer, e cada depósito individual vai doer menos no bolso. Se você tiver problemas de disciplina, muitos bancos oferecem planos de transferência automática mensal para uma série de planos de capitalização (que em geral não são ótimos investimentos), e aí a mordida será automatizada: todo mês, após o salário pingar lá no fundo da conta corrente, uma parcela vai para a reserva. Mas faça com que esta conta de destino seja exclusiva para o fundo de reserva - misturar todos os fundos em um saldo comum não é bom para a disciplina, e nem para a motivação.

Depois de decidido, coloque em prática!

Nenhum plano vale nada se não for colocado em prática e mantido. Se você decidir, faça os sacrifícios necessários e busque constantemente as metas definidas. Ao final do prazo, você terá alcançado o valor desejado e, o que é melhor, poderá ter desenvolvido uma rotina de poupança que poderá ser canalizada a outros investimentos mais rentáveis, ou à aquisição de bens que sejam de seu interesse.

Em especial, saiba também quando chega a hora do movimento contrário: o fundo de reserva está lá para emergências, e não necessariamente apenas para algum momento em que você se veja privado de suas fontes de receita. Uma manutenção inesperada (e emergencial) no carro ou na casa podem ser bons motivos para fazer uso dele - o que deve também colocar em operação um novo plano de metas para recompô-lo.

Leia também

Comentar

Comentários arquivados

Comentário de Welington Braga em 09/03/2009 às 23:24:56

Faz uns anos que comecei a pensar nisso. Embora tenha o meu plano de saúde, minha casa quitada, odeie carros e não tenha despesas maiores que meu orçamento, nunca se sabe quando vai ocorrer uma eventualidade. Por isso eu decidi começar a aplicar apenas 50,00 mensais em uma caderneta de poupança e para garantir que não iria esquecer eu fiz um agendamento para depósito automático para alguns dias após os meus vencimentos caírem em conta, de forma que mesmo que eu esquecesse o meu "porquinho" iria continuar engordando. O tempo foi passando e junto com as melhorias no salário, alguns cortes de despesas e etc pude aumentar esta quantia para um valor menos simbólico. Depois de mais alguns cortes mesmo assim passou a sobrar alguma grana na conta corrente que passei a chamar de "sobra" e como tal eu não deveria gasta-la no mes seguinte e sim aplicá-la também. Em fim, hoje em dia (em plena crise mundial) eu estou aplicando uma quantia cerca de 20x maior que a inicial, ou mais e uma coisa que notei: Por saber que tenho um fundo de reserva financeira não só minha satisfação pessoal melhorou, como também meu estresse sob o risco de uma eventualidade. Recomendo então que todos, independente de quanto pretendam investir que comece logo. O legal é que depois de um tempo isso acaba virando um vício benéfico em que você quer ver os valores crescerem e por isso começa a abrir os olhos para gastos fúteis só para investir mais.

Comentário de Carlos Eduardo Nunes em 10/03/2009 às 11:43:02

Este assunto realmente é algo muito importante. Faz alguns anos que venho adotando esta prática tanto na vida pessoal, como profissional, de criar um fundo de reserva para garantir pelo menos 6 meses de despesas fixas pagas sem necessidade de recorrer a empréstimos ou cartão de crédito, etc. Como sou proprietário de empresa, em tempos de crise tudo pode acontecer. Felizmente ainda não tive nenhum problema em decorrência da crise. Pra falar a verdade tive um aumento considerável no meu faturamento nos últimos 3 meses, mas a qualquer momento meus clientes podem decidir cancelar um projeto ou outro, ai fico na mão. Com a reserva, fico tranquilo pelo menos para honrar todos os meus compromissos sem me estressar pelo prazo de 6 meses. Apesar de não me deixar acomodado, posso ter tempo para pensar e planejar alternativas que ajustem meu faturamento novamente. Como a aplicação onde depositei o fundo de reserva já corrige os valores, só faço algum aporte diferenciado quando é para recompor o valor, caso tenha tido necessidade de usar em alguma eventualidade ou quando preciso adequar o fundo de reserva ao meu novo padrão de gastos. Além deste fundo de reserva, aplico uma parte parte dos meus rendimentos dividindo em investimentos de alto e médio risco a longo prazo. Apesar de ser obrigado a contribuir para o INSS nignuém sabe o que vai acontecer com a previdência então caso eu tenha a "sorte" de conseguir receber alguma coisa da previdência, será bom, mas caso não venha a receber nada, pelo menos estou garantindo a minha renda por conta própria.

Comentário de wryel em 10/03/2009 às 16:34:51

Confesso que não li porquê estou indo para faculdade, mas ja adicinei aos favoritos pois este tipo de assunto sempre me atraiu atenção! @Welington Braga: "... Embora tenha o meu plano de saúde, minha casa quitada, odeie carros ..." e eu que me achava diferente do brasil que odeia carros, hoje tenho certeza que não sou mais :P

Comentário de Augusto em 10/03/2009 às 23:19:26

Eu já li alguns livros sobre finanças pessoais. Em todos se fala nessa questão da economia. Algum dos autores dá o nome da regra "Pague-se primeiro!". Entrou a grana na conta, guarda uma quantia! Outra coisa que todos os autores citaram, não só nos livros como em reportagens na TV e jornais é com a questão da diversificação dos investimentos. Claro que no começo é mais difícil diversificar. E economizar não é deixar de viver!!! Talvez pra quem conheça mais o assunto esses livros não sejam de boa utilidade. Mas pra quem não tem idéia nenhuma de como economizar e pra não cair nas roubadas dos bancos que oferecem serviços que só são bons pra eles, é uma boa pedida. Infelizmente no Brasil não se tem o hábito de educação financeira nem nas famílias, nem na escola. Livros: - A Árvore do Dinheiro - Jurandir Macedo - Casais Inteligentes Enriquecem Juntos - Gustavo Cerbasi - Investimentos - Mauro Halfed

Comentário de augusto em 11/03/2009 às 01:23:29

Augusto, concordo especialmente com o teu lembrete: economizar não é deixar de viver, não pode ser um fim em si, e sim um meio!

Comentário de Flavio Suárez em 18/03/2009 às 18:41:06

Alguns artigos sobre zero-based budgeting: http://www.gettingfinancesdone.com/blog/archives/2006/08/how-to-create-a-zero-based-budget/ http://www.wisebread.com/making-every-penny-count-with-a-zero-based-budget http://en.wikipedia.org/wiki/Zero_Based_Budgeting As planilhas pro Excel que gostei mais foram: http://www.ratestate.com/news/index.php/free-budgeting-tool http://pearbudget.com/pearbudget.zip

Comentário de Desenvolvimento de Sites em 18/06/2009 às 20:38:19

muito bacana a 2 anos atrás comecei a implantar isto também e o retorno foi significativo, quando vejo amigos meus fazendo prestações de carros em 60 x de 400/500 reais demonstro a eles o valor do juros e o que estão perdendo se estivessem investindo este valor, ou simplesmente guardando este valor mensal iriam poder quitar o carro mto antes do que pensavam. http://www.buscasulfluminense.com

Comentário de Fernando Medeiros em 15/04/2010 às 23:58:02

Interessante e muito relevante, parabens por compartilhar.

Comentário de Fabiano carneiro em 08/07/2010 às 16:17:17

Tento todos os dias economizar um pouquinho mais é uma coisa tão difícil. Abraços.

Comentário de Layse matos em 22/03/2011 às 01:13:30

Queria apenas parabenizá-lo e dizer que fazia muito tempo que não via um site tão completo, direto e simplista, muito bem elaborado.