O que todo blogueiro pode aprender com René Descartes

, por Augusto Campos Blogging, Técnicas

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Deixar claro para o leitor o que esperar de cada texto é uma boa prática para evitar surpreendê-lo negativamente.

E, talvez como conseqüência da cultura norte-americana de recorrer ao judiciário logo no primeiro sinal de que algo deu errado e há esperança de colocar a culpa em outra pessoa, a prática de incluir “disclaimers” nos textos é cada vez mais comum. Disclaimers são aqueles trechos em que o autor ou a publicação limitam sua responsabilidade sobre as conseqüencias da leitura do texto. “Sua quilometragem pode variar”, “Não faça isso em casa”, “Não oferecemos qualquer garantia”, ou outras formas polidas de dizer que o leitor está por sua própria conta e risco, algo que deveria ser óbvio mas cada vez mais precisa ser tornado explícito.

Curiosamente, ganhei de presente há algumas semanas um pequeno exemplar do “Discurso do Método”, de René Descartes, e percebi que logo nas primeiras páginas ele inclui um pequeno trecho que serve como aviso do que o leitor deve esperar em termos de autoridade sobre o conteúdo, e também vale como um precursor dos atuais disclaimers.

Mais do que uma curiosidade histórica, o disclaimer de René Descartes expressa um ideal e um desejo que podem ser compartilhados pela maioria dos autores e blogueiros que eu conheço. Vou citar diretamente:

Assim, não é meu propósito ensinar aqui o método que cada indivíduo deveria seguir para bem conduzir a sua razão, mas apenas mostrar de que maneira procurei guiar a minha. Os que se propõem a oferecer preceitos devem julgar-se mais capazes dos que os recebem; e, se falham na mínima coisa, tornam-se por isso censuráveis. Mas, propondo-se este escrito a ser apenas uma história ou, se preferirdes, uma fábula, na qual, entre alguns exemplos que possam ser imitados, talvez se encontrem outros que será acertado não seguir, espero que seja ele útil a alguém, sem ser nocivo a ninguém, e que todos me serão gratos pela minha franqueza.”

Como “disclaimer”, não é dos mais elegantes. Mas como proposta de valor, coloca o autor em uma posição modesta, expondo a sua opinião sob um ponto de vista pessoal, na expectativa de que o leitor possa usar esta informação para tirar suas próprias conclusões.

Por todo lado encontramos autores que estão sempre dispostos a pregar, determinar, julgar e corrigir o comportamento alheio, sem estar dispostos a ser censurados da mesma forma. Não estou em condições de avaliar se Descartes praticava o que afirmou, mas seu posicionamento exposto no trecho acima é sem dúvida digno de análise.

Além disso, o desejo de que o texto seja “útil a alguém, sem ser nocivo a ninguém” poderia sem dúvida fazer parte da inspiração de um código de ética do escritor.

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9 Comentários até agora

  1. Silvia comentou:

    em October 25 2007 @

    Augsuto, desde o começo noto que nos seus textos procura que sejam, de verdade, úteis. Isto encontro nos americanos. Boa parte das matérias em revistas brasileiras, quando as acompanhava, percebia-as como superficiais e nada acrescentando ao que já se sabe. As vezes, com omissão da informação em alguns casos.

    Nem sempre é necessário ter uma nova solução para as questões do dia-a-dia. Mas o lugar comum destas matérias fracas é muito diferente do relato pessoal que pode não ser inovador mas é sincero e por isto acrescenta ao leitor algum elemneto.

    O que ainda bem você não faz como os americanos é o tom de doutrinação “Faça assim.” como se todos fossemos identicos e quem dita a idéia, o único inteligente, superior.

    De muito bom gosto a citação!

  2. Felipe Suzin comentou:

    em October 25 2007 @

    No discurso do método, Descartes faz uma decomposição da moral através da dúvida sitemática. Avançando na sua leitura você vai perceber que ele se preocupou em criar uma moral provisória para aqueles que se dedicassem ao seu método. Ele acreditava que ao se duvidar de tudo, fatalmente no periodo em que se repensasse a moral, o sujeito estaria em risco com a sociedade, pois afrontaria seus costumes e usos.
    Esta preocupação não se vê nos escritores dos “O Segredo” da vida. Eles propõe montes de balela sem fundamento e pedem as pessoas que se entreguem a isto sem questionar nada.
    Descartes queria o oposto. Queria que as pessoas refletissem sobre cada verdade, cada peça de conhecimento que possuiam no intuito de se fazerem melhores, de encontrarem a verdade em sí.
    Ele tinha a pretenção de substituir Aristóteles no ensino cursivo de seu tempo, e a meu ver se não o substituiu no seu tempo, hoje deveria substituir a balela da auto-ajuda, pela verdade da auto-reflexão.

  3. Lucas Arruda comentou:

    em October 25 2007 @

    > Por todo lado encontramos autores que estão sempre dispostos a
    > pregar, determinar, julgar e corrigir o comportamento alheio,
    > sem estar dispostos a ser censurados da mesma forma.

    Bom, acho que todo mundo que escreve algo descrevendo uma experiência, de um certo modo é uma auto-ajuda.

    Este blog, por exemplo, é ótimo, e não estou falando à toa, é verdade. Mas, tópicos “auto-ajuda” vendem mais, e acho que isto justifica entradas como esta: “Valorizando o currículo: como conseguir o emprego dos seus sonhos na área de Informática”.

    Então, não estou criticando ninguém. Mas, é que no mundo de hoje, realmente, o assunto polêmico vende, então há um tendência do uso desta técnica em tudo. Os livros de auto-ajuda entram “muito bem” para suprir a falta de socialização da atualidade.

  4. augusto comentou:

    em October 25 2007 @

    Lucas, não entendi a relação entre o trecho citado e a sua afirmação, você pode explicar melhor?

    Esclareço não ter nada contra os artigos expositivos, propositivos, mas não daria o salto lógico de afirmar que todos eles acabam constituindo uma forma de auto-ajuda. Não tenho nada contra os que são auto-ajuda, mas não acho que sejam sinônimos.

    Ainda, gostaria de informar que o post citado por ti está entre os 15% menos lidos do Efetividade ;-) E que, felizmente, eu não uso este critério de seleção de temas, baseado no que “vende” - senão, ao invés de René Descartes, provavelmente estaria escrevendo sobre o que podemos aprender com o Rebelde, ou então sobre os novos lançamentos da Mattel na linha Barbie…

  5. Vitor - Eletrontech comentou:

    em October 25 2007 @

    Realmente o livro é muito bom, conta muito sobre refletir, parar para pensar. Quem ainda não leu, recomendo, mas leia com calma, não é uma leitura das mais fáceis.

  6. Bernardo Pina comentou:

    em October 25 2007 @

    Valeu a dica… Irei procurar o livro e comprá-lo! =)

  7. Lucas Arruda comentou:

    em October 26 2007 @

    Augusto,

    só estava falando que não tem como fugir muito disto não. Não foi uma crítica não.
    Praticamente todos os guias/manuais estão neste estilo, como o GTD (The Art of Stress-Free Productivity), o LaTeX Short (latex in 139 minutes), etc.

    []s

  8. Felipe Suzin comentou:

    em October 27 2007 @

    Lucas,

    Acho que voce fez confusão entre a chamada de uma artigo e seu conteudo.
    Chamadas são por definição apelativas, inclusive a chamada do Discurso do Método: “Discurso sobre o método para bem conduzir a razão na busca da verdade dentro das ciências”. Neste sentido voce pode perceber a mesma apelação que existe num livro do Roberto Shinyashiki, ou seja: Pretencioso, resolve todos seus problemas, é a solução pra tudo.
    O que difere é o conteudo. Enquanto a auto-ajuda propõe soluções “mágicas”, na qual é só seguir uma forma de pensar e tudo esta resolvido, a filosofia propõe a reflexão e o conhecimento como ferramentas.
    Então temos em vez de “Como Obter Sucesso!”, temos: “O que é sucesso?” “Qual o sucesso que eu desejo?”
    Ou até mais prático: “O que a mídia diz que é sucesso, é sucesso para mim?” “Preciso ter o corpo do Paulo Zulu e o dinheiro do Bill Gates para ter sucesso?”
    A filosofia te faz pensar teu lugar no tempo e no espaço, enquanto a auto-ajuda te diz que estas fora dele e da uma receita para entrar no “esquema”.
    A explicação foi curta e superficial, até por que é o que op espaço permite. MAs se quiseres continuar o debate, estamos ai.

    Abraços.

  9. Descartés e os Blogs « Privado-Público comentou:

    em November 1 2007 @

    [...] e os Blogs 1 11 2007 O Augusto Campos publicou um pequeno trecho introdutório do livro “Discurso do Método”, de René Descartes, [...]

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